Fico me perguntando.
Se aquela velha senhora sentada no ponto de ônibus comendo a pipoca que catou do lixo, sabe que eu sou ela.
Se aquela jovem de minissaia, fumando um cigarro como femme fatale, pode imaginar que é a mim que os homens admiram.
Se aquele menino desmaiado na esquina, por ter cheirado cola, sabe que sou eu inconsciente resistindo nele.
Se o suicida, pronto para o mergulho final, sabe que sou eu a investir os segredos naquele abismo.
Se o motorista raivoso e perturbado pode perceber que quando ele grita estirando as veias do coração, sou eu.
Se o cão farejando o resto de comida descartado na calçada sabe que sou eu nele, latindo e balançando o rabo.
Se o empresário de terno e gravata derretendo o cérebro para conseguir o seu próximo milhão, sabe que eu sou ele.
Se o bebê dentro do ventre daquela mulher soterrada no Haiti, sabe que sou eu a viver no conforto do fluido amniótico.
Se a minha vizinha que sofre de insônia e arrasta os móveis na madrugada, sabe que sou eu a varrer, desesperadamente, a casa.
Se a criança correndo e gritando que é um foguete, sabe que sou eu a voar pelo céu, rasgando nuvens, e estrelas, e planetas.
Se o palhaço a encantar a menininha doente no hospital, sabe que a menininha sou eu, e que eu também sou ele.
E sou a pipoca, os móveis arrastados, o resto de comida, o abismo, o cigarro, as veias, o milhão, a mulher soterrada, o cérebro, o coração, a cola, a minissaia, as estrelas, a gravata, o ônibus, o hospital, o foguete...
Fico me perguntando.
Se, percebendo a mim mesmo, sentado dentro deste ônibus, sei com profunda (in) certeza que já não há lugar em mim onde caiba Eu.

1 comentários:
adoro ler vc.
ver o mundo pela suas palavras, acho que é máximo que chegamos de fato perto de alguém: quando o lemos.
Vc sabe que vejo com seus olhos, agora que acabo de lê-lo?
Parabéns pelo seu trabalho.
Ale Safra
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