18.12.09

A ÚLTIMA CRÔNICA DE 2009 OU O FOGO SAGRADO


Fazer uma retrospectiva do ano é tão ridículo quanto escrever cartas de amor. Mas como não tenho nenhum pudor intelectual e até gosto de muitas coisas ridículas, inclusive escrever cartas de amor, vou me entregar a essa tarefa inglória. Não em ordem cronológica, mas em ordem cronoilógica, que é a única que me interessa.
Para começar, organizei uma antologia de contos infanto-juvenis com vinte autores, escrevi um livro em parceria com minha esposa e cúmplice, participei de outras duas antologias, escrevi, ministrei aulas de criação literária, reescrevi, dei aulas de comunicação, conheci muita gente bacana, comecei o ano em Buenos Aires numa lanchonete chamada Kentuki, dormi pouco, chorei e suei bastante, fui aos shows do Keane, R.E.M, Radiohead, Kraftwerk (pela terceira vez) e terminei, em êxtase, na lama no show do The Killers. Dancei pouco. Pulei muito. Não comi nenhum quindim. Perguntei muito.
Visitei pouco os meus amigos e minha família, vi pouco a minha mãe, escrevi menos do que gostaria, abracei menos do que gostaria, beijei menos do que gostaria.Segurei nos braços um velho e maior amigo, e o vi na cama da U.T. I, deixando a vida aos 43 anos de idade. Lembrei dos sonhos que tivemos juntos. Senti saudades de meu pai. Senti saudades. Fiz terapia, comecei a estudar terapia corporal, passei a compreender as palavras de Aldous Huxley: “Chega um tempo em que perguntamos até de Shakespeare e Beethoven: isso é tudo?”
Conheci a beleza, a ancestralidade e a medicina do povo da floresta. O fogo sagrado. Dei meu mergulho profundo. Fiquei oceânico. Cantei pouco, não toquei bateria, continuei o tratamento para o meu colesterol alto, genético. Quis saber o que mais é genético em mim. Minha herança. Escapei da gripe suína. Bebi pouca água. Ganhei novos amigos. Fortaleci velhas amizades. Li menos do que gostaria. Passei a admirar muito mais as tartarugas, os ursos e lobos do que Dostoievski e Machado de Assis. Desisti, pelo menos por enquanto, de fazer um doutorado. Entre “Bastardos Inglórios” e o “Anticristo”, fiquei com o segundo. Chorei em 3D, de mãos dadas com minha esposa, ao ver “UP”, dos gênios da Pixar. Curei minhas micoses nas unhas dos pés. Contei piadas infames. Não meditei. Fiz piquenique alguns domingos no Jardim Botânico, passei a amar ainda mais, a admirar ainda mais, a viver com mais intensidade o meu amor por minha esposa. Fizemos a renovação da celebração da nossa união; abençoados por Jean-Yves Leloup. Fiquei espremido no ônibus muitas vezes, assisti com desilusão, uma troca de socos dentro do metrô entre um jovem e um senhor de uns sessenta anos. Terminei meu tratamento dentário. Raspei a cabeça de quinze em quinze dias. Vi menos os meus irmãos do que gostaria. Fui menos ao teatro do que gostaria. Abri uma conta no Twitter e outra no Facebook. Não desativei a conta no orkut. Sonhei muito. Rios, ondas, serpentes, crocodilos, leões, e sapos, e rãs. Escrevi pouco no blogue, menos do que gostaria. Parei de encanar com as tantas coisas que faço: escritor, educador, terapeuta corporal, músico. E passei a enxergar que só assim me completo. Sou um buscador. Tomei mais chá do que café. Rolei na grama abraçado a um lençol branco. Fui picado por formigas. Emagreci cinco quilos. Adormeci ao som dos pavões e das araras. Vivi o ano sentindo.

8 comentários:

Ana Billet disse...

Lindo seu texto...
vou fazer essa coisa "ridícula" de retrospectiva também...adorei...
Um ótimo e inspirado ano pra vocês...
Cheio de inspirações...sorrisos...e emoções de mãos dadas...
Bjo
Ana Billet

Nelson Lourenço disse...

Da lama do Killers ao caos do AC/DC (aha...nesse vc não foi). Mais um texto inspirador, Marcelo, obrigado por compartilhar conosco. Abraço, Nelson

Flávia Reis disse...

Marcelo,

Bom saber a intensidade do seu ano ao calor do fogo sagrado!

(2010 beba mais água e visite mais a sua mãe, pôxa!)

Abraço de todas as cores,

Flávia Reis

Marcelo Maluf disse...

Que bom , Ana, que também deseja se entregar a essa tarefa inglória, gracias!
Pois é, Nelson, não fui ao grande AC/DC...
E Flávia, pode deixar, vou tentar me redimir com muita água e visitas!
Gracias!
Marcelo

Brontops Baruq disse...

Do caray: adorei.

Abs

Tânia Alexandre Martinelli disse...

Marcelo,
Que em 2010 você também passe o ano sentindo. Acho que o sentir é que nos move, nos encanta, nos apaixona e nos faz viver. Só assim. Só assim.
Bjs, prima.

Laura Fuentes disse...

Adorei esse balanço de peito aberto. O mais lindo dele foi saber que você passou o ano sentindo, se permitindo sentir.

Pati Cytrynowicz disse...

Adorei o seu balanço!
Bjs

Imagem: Rogério Pinto