22.8.09

Conversas no Sótão com Flávia Muniz


Minha entrevistada da vez é a querida escritora Flávia Muniz. E assim se deu o nosso papo:

1. Flávia, o que você sonhou a noite passada?

Sonhei uma casa de campo como a do Zé Rodrix. Eu acrescentaria alguns detalhes pessoais à arquitetura dele, como uma grande biblioteca (daquelas de madeira escura com escadinha de acesso às prateleiras mais altas, com muitos livros e filmes e incensos adoráveis), um sofá confortável de veludo, uma lareira, alguma bebida, e tempo para apreciar a bela vista da floresta.


2. Ernesto Sábato diz em seu livro “O escritor e seus fantasmas” que a condição mais preciosa do criador é o fanatismo, que nada deve antepor-se à sua criação, deve sacrificar qualquer coisa a ela, que sem esse fanatismo nada de importante se pode fazer. Pra você é assim? Como você encara essa questão em sua literatura?

A condição mais preciosa do escritor é sua determinação. Sem ela, nada acontece. Após ter adquirido conhecimento e certa experiência (o que leva tempo), temos outras batalhas a enfrentar. Somos humanos, portadores de fraquezas e desvios, e muito condescendentes com os próprios defeitos... Alguns de nós (seres humanos!) vivem se desculpando. Em minha opinião, precisamos superar os próprios limites para ascender. Não os limites do outro. O outro é o outro, por mais Bergman que possa parecer.

A garra com que nos apegamos à criação é algo que não se explica. Digo isso porque tenho ouvido relatos de parceiros que testemunham vivências semelhantes. Eu, por exemplo, em determinados trabalhos, fico sem comer e dormir. Acordo no meio da noite com falas prontas que exigem registro imediato, sonho com os personagens e desvendo suas almas sem hora marcada. Assisto, com surpresa, ao fato de não obedecerem ao roteiro porque adquirem vida própria além do teclado, da caneta, das mãos que a eles dá voz.

Digo sempre que escrever parece um download, nem sempre da própria alma. Não há time planejado. É fantasmagórico...




3- O que importa mais em seu texto: o QUE ou o COMO? Por quê?

Tudo é importante ao se construir um enredo. Os processos demandam forças diferentes, utilizam capacidades diferentes. Sou pesquisadora metódica. Gosto de pinçar temas e avaliar se me conquistam. Gosto de aprender com quem tem experiência semelhante e diversa, gosto de dividir com quem está em descoberta. Gosto de seduzir o leitor. De buscar a melhor expressão na cena que crio. De trabalhar o suspense como se fosse um quebra-cabeça assombrado. Gosto de sentir emoção ao terminar um capítulo.

Em meu livro, Os Noturnos, em segunda edição e mais de 35 reimpressões comemoro um índice de releitura incrível mesmo depois de muitos anos no mercado. Criei no romance vampírico as diferenças de forças entre os seres malditos, a idéia de que, ao serem transformados, os humanos levariam para a vida das trevas suas qualidades e defeitos amplificados. Isso foi resultado de meu envolvimento em RPG (o jogo), ao tabular os pontos dos personagens. Esse detalhe, incluído na composição dos personagens da história, deu um sabor mais humanizado aos monstros, tipo, somos vampiros, mas somos plurais e diversos. Essa foi a minha intenção.



Criei também o personagem do Guardião alçado à condição de importância, não de um débil ajudante do Mal, mas de um ser inteligente especialmente escolhido para defender as Trevas. Não li nada com esses detalhes valorizados antes de Os Noturnos. Escolhi o Guardião porque sei que ele, sim, é o amaldiçoado. Deve fazer uma escolha que não é fácil a qualquer humano de bem.

Se não fosse minha determinação em buscar um diferencial para a história, não teria feito nada de efeito. Mas o interessante, diga-se de passagem, é que os leitores concentram sua atenção no amor. Mas isso irá se reverter no próximo livro. Só há reviravolta em todos os sentidos.

4. Qual é a sua relação com outras linguagens artísticas (música, teatro, cinema, artes plásticas, H.Q, etc) e até que ponto elas influenciam a sua produção literária?

Sou filha de outras mídias, sim. E com orgulho. Preciso me alimentar de um cardápio variado. Sou amante do cinema e do teatro. Curto HQs e artes plásticas. Admiro os profissionais dessas áreas e me encanto especialmente com o cinema – que é uma parceria artística fantástica.

O escritor é muito solitário em sua criação. O cinema é solidário na criação e em sua expressão. Para determinadas artes sou fã, para outras, sou pesquisadora e estudiosa. Já atuei em teatro infantil, já criei roteiros para programas infantis da Cultura, criei um jogo cartonado sobre bruxas, revistas de entretenimento, um personagem que figurou em cartões sociais e de Natal, camisetas e bloquinhos. Concluí a primeira parte de um curso sobre a história e linguagem do cinema, na PUC. Tenho interesses variados. Se você é um ser artístico, se seu modo de expressão no mundo é a arte, não se pode ser insensível às demais linguagens. No mínimo, você estará perdendo referências.


5- Por que, afinal, você faz literatura, num país com tão poucos leitores?

Sou educadora, professora da rede particular de ensino. Nasci como escritora em uma sala de aula. Minha formação essencial me leva a acreditar na capacidade de superação dos indivíduos, no crescimento pessoal e no bom resultado da luta enfrentada. A educação sempre dá frutos. É um trabalho imenso, que começa no modo como alfabetizamos nossas crianças, como as apresentamos à arte de ler e ao desafio de escrever, no modo como as ensinamos a ler o mundo.

É um país que tem problemas sociais que interferem na formação intelectual e na capacidade leitora de sua população. Conhece o refrão Você tem fome do quê?

É mais importante comer do que ler. Comer para poder ler. Mas há esforços reais no sentido de modificar a paisagem. Desde que atuo profissionalmente, tenho contato com educadores conscientes que lutam em suas instâncias menores e maiores para melhorar o acesso à arte e à literatura de crianças e jovens.

Acredito que os esforços estejam levando gradativamente a reverter o quadro. Os programas de governo anuais, a exigência por melhor qualidade dos livros didáticos, o investimento na formação dos professores e a valorização da leitura pelos pais, que devem indicar desde cedo, um livro logo ali, para ser apreciado no calor do encontro com a leitura. Devemos conquistar leitores lendo para eles. Mostrando que a experiência é boa, faz bem, faz rir e chorar, faz pensar em si mesmo e nos outros. Se esse leitor eventual tiver apenas um encontro de qualidade, poderá ser conquistado pela leitura para sempre. E, se eu puder contribuir com um enredo, uma linha de texto ou uma palavra para encantar um deles, ficarei feliz por compartilhar a magia.

As obras de Flávia Muniz são: Os Noturnos, Viajantes do Infinito (Prêmio APCA Melhor Livro Juvenil), Brincadeira de saci (finalista Jabuti), O tubo de cola (finalista Jabuti), Presente de bruxa, A caixa maluca, O caso pena envenenada, Uma sombra em ação (um best-seller), Julinho, o sapo, Bichos incríveis, Fantasma só faz buu! (tem 25 anos!) Rita, não grita! (Programa de Governo, outro best-seller!) Beto Baguncinha (traduzido no México), Mais pra lá do Quipracá, Sete faces do Terror, Sallen 777, Manual dos namorados, entre outras.

2 comentários:

Jose Ramon Santana Vazquez disse...

...palabra
de
aire
lleva
jazmin
del
sendero
aun
es verano
y
apura
las olas
marcelo
tras
acompañarte
y
darse
contigo
escrita
revelada
y
compartida
entre
todos...


desde mis ---horas rotas ---

te sigo marcelo ,con un fuerte

abrzo de emociones .

afectuosamente

marcelo:

jose
ramon...

Anônimo disse...

Querido Marcelo,
quero agradecer-lhe pelo espaço concedido e brindar com a turma do Labirintos do sótão, tudo de bom que ainda virá e que certamente faremos!

Imagem: Rogério Pinto