
Minha entrevistada da vez é a escritora Maria Amália Camargo. E assim se deu a nossa conversa:
1. Maria Amália, o que você sonhou a noite passada?
R. Eu sonho muito; a noite inteira. E às vezes sonho tanto que já acordo cansada. Apesar de ter largado o vício de assistir novelas, o elenco da TV Globo insiste em aparecer pra me tentar. Ontem, por exemplo, o Paulo Goulart (marido da Nicete) me pedia para identificar uma verdura no supermercado. Eu dizia que era almeirão e ele insistia dizendo que não, que era “agrião hidropônico”. Dei de ombros e falei: “mas se o senhor já sabia, então por que perguntou”?
Tenho sonhos que me perseguem de quinze em quinze dias: um deles é voltar pra escola e refazer a oitava série, o outro, sonhar que falto à todas as aulas de matemática e só pareço no dia da prova sem saber a matéria. Ainda não descobri como me livrar deles...

2.Ernesto Sábato diz em seu livro “O escritor e seus fantasmas” que a condição mais preciosa do criador é o fanatismo, que nada deve antepor-se à sua criação, deve sacrificar qualquer coisa a ela, que sem esse fanatismo nada de importante se pode fazer. Pra você é assim? Como você encara essa questão em sua literatura?
R. Hum, a palavra “fanatismo” não me soa muito bem: faz lembrar o escritor de rádio-novelas do romance do Mario Vargas Llosa, Tia Júlia e o Escrevinhador. Pedro Camacho escrevia compulsivamente, morava num quarto de pensão caindo aos pedaços, não comia direito, dormia mal, trabalhava numa sala minúscula... Deu no que deu: entrou em curto e começou a misturar as personagens e as histórias.
Acho que o recolhimento é a condição ideal para o escritor. E com esse recolhimento vem o abandono de tudo ao redor, sim. Mas preferiria citar Rainer Maria Rilke, nas Cartas a um Jovem Poeta, onde ele coloca que é preciso uma solidão, uma grande solidão interior; entrar em si mesmo e não encontrar com ninguém durante horas... O conceito é o mesmo, mas, trocando algumas palavras nosso sacrifício fica, aparentemente, mais leve. Comigo funciona desse jeito: preciso de sossego para criar e assim não contaminar minhas histórias. Ah, e outra coisa que me dá ânimo é a conta bancária em declínio. Quanto menos dinheiro no banco, mais criativa fico. Taí o segredo de eu nunca jogar na loteria: vai que fico milionária e minha inspiração some...

3. Quando você começou a escrever? E por que literatura infantil?
R. Quando tinha oito anos, minha família se mudou para São Paulo. Saímos de uma casa em Santos perto da praia e fomos morar no 16º andar do apartamento que era da minha bisavó. Não havia o que fazer lá, os brinquedos e os amigos estavam em outra cidade e não tínhamos mais quintal pra fazer bagunça. Então, eu e meu irmão começamos a brincar com as quinquilharias que estavam dando sopa dentro de casa (daí a inspiração para escrever o Companhia Três Marias). Entre essas coisas do “ácaro-da-velha” havia uma máquina de escrever, carimbos, tintas e muito papel sem uso. Decidimos montar uma agência de detetives: ele investigava os casos e eu era responsável em relatar todas as ocorrências. Minha mãe lia aquelas histórias batidas à máquina e adorava.
Anos depois fui fazer Letras, influenciada pelas aulas de literatura do meu professor no colegial, o Frederico Barbosa (poeta e hoje diretor da Casa das Rosas). Mas as aulas dele eram bem melhores do que as da faculdade. Acabei desiludida com o curso, parte também pela Linguística, que é uma disciplina mais difícil de enfrentar do que Álgebra e Geometria. Aí, já formada, sem saber o que fazer da vida e quase rasgando meu diploma, lembrei do entusiasmo da minha mãe e resolvi apostar naquelas invencionices de quando era criança. Nunca cogitei em me tornar escritora; tinha certeza que minha vocação seria na área de artes visuais.
E talvez minha escolha pela literatura infantil venha daí: um espaço onde as imagens e as palavras convivem em harmonia; onde as ilustrações complementam o texto e vice-versa. Talvez também por ter tomado gosto de trabalhar com o público infantil quando estagiei no MAC-USP em projetos de arte-educação. Sobretudo, acredito que seja uma opção guiada pela minha dificuldade em admitir que já não sou mais criança. Nesse ponto, sou como o Peter Pan e o finado Michael Jackson: não quero envelhecer nunca.

4. Qual é a sua relação com outras linguagens artísticas (música, teatro, cinema, artes plásticas, H.Q, etc) e até que ponto elas influenciam a sua produção literária?
R. Sempre gostei de desenhar, desde muito pequena. Meu pai me mostrava livros de arte e eu dizia pra ele, inconformada, que o Picasso não sabia desenhar. Desde a sétima série era certo que faria artes-plásticas, aos dezesseis comecei a sonhar em fazer cenografia para teatro. Trabalhei em dois museus, fiz fotografia... Dos sete aos doze anos estudei piano (tudo bem que atualmente só sai Frère Jacques) e hoje sinto necessidade de ouvir música enquanto escrevo para dar mais fluidez às ideias e ao texto. Das linguagens artísticas, só com a dança não tenho muita familiaridade - se bem que meu exercício preferido no papel é o de esboçar bailarinas...
Acho que elas influenciam em tudo na minha produção; não consigo dissociar cada linguagem, tento levar cada uma delas para os meus textos: seja por meio de citações, seja na tentativa de traduzí-las com palavras.

5. Qual foi o livro que, na sua infância ou adolescência, te fez gostar de ler, ter o prazer da leitura?
R. Fora os gibis da Turma da Mônica, lembro-me de um livro da Ruth Rocha, Procurando Firme, que li e reli até enjoar. Fui com a escola (acho que na 1ª série) assistir à uma peça de teatro baseada nessa história e não gostei. Pra mim, o livro era mil vezes melhor. Com o passar dos anos, tendo que enfrentar aquelas leituras obrigatórias do colégio, criei uma certa resistência (quanto livro chato a gente era obrigado a engolir só pra fazer uma prova depois!) e me tornei preguiçosa pra ler. E isso ainda acontecia, mesmo durante a faculdade de Letras. Infelizmente esse “desgosto” durou muito mais anos do que deveria...
Na época do vestibular, todo mundo dizia horrores do Primo Basílio. Li e tive uma tremenda e agradável surpresa. Foi o Eça de Queirós quem re-despertou meu interesse pela leitura. Pra ter uma ideia, só li o Sítio do Pica-pau Amarelo na metade dos vinte.
Por isso costumo dizer que a escola deve trabalhar a questão da leitura com muito cuidado. Toda criança gosta de folhear livros e de ouvir histórias. Mas algo no meio do caminho dá errado e o que era um prazer acaba se transformando num fardo. Em alguns casos tem conserto, em muitos outros, não.

Maria Amália Camargo tem 31 anos e há mais de vinte tem pesadelos com aulas de matemática – vai ver foi por isso que se formou em Letras.
É autora de Companhia Três Marias (2009), Muito Pano pra Manga (2008), Romeu suspira Julieta espirra (2007), Acra de Eon (2006), Laranja-pêra couve manteiga (2006) e Num reino cor de burro quando foge (no prelo) - todos publicados pela Girafinha.
Para saber mais sobre seu trabalho, visite: http://www.nacontramaodocontrario.blogspot.com/
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