Imagem: Rogério Pinto

11.7.09

Conversas no Sótão com Marcelo Barbon


Meu entrevistado da vez é o escritor e tradutor Marcelo Barbon. Direto de Buenos Aires. E assim se deu o nosso papo:


1. Qual é o seu "lugar imaginário" favorito dentro da literatura?
R. Dentro das cabeças dos escritores. Porque minha literatura é a de um cansado ou preguiçoso. Não gosto de literatura de ação, nem a ação de sair de casa (o que é um pouco a minha vida real), por isso crio histórias basicamente mentais - muitas delas débeis-mentais. Para mim, mais importante é retratar o que as pessoas pensam, não o que falam ou fazem. Assim, com certeza, o lugar “imaginário” mais importante é a mente.


2. Se você entrasse no labirinto de Creta e deparasse com o Minotauro, o que você faria ou diria para ele?
R. Pô, não era melhor ter o corpo de touro e a cabeça de homem? Ah, talvez não, melhor deixar assim mesmo.

3. Se você pudesse escolher ser um personagem da história da literatura, qual seria?
R. Eu queria experimentar aquela droga que fez a Alice (a do país das maravilhas) viajar daquele jeito. Antes que a fofoca se espalhe, não estou pensando em mudar de sexo, não. Minha mudança para Buenos Aires não tem nada a ver com isso.


4. Qual é a importância da imaginação, da memória e da observação em seu processo criativo?
R. Todas têm sua importância, porque cada processo criativo tem características distintas. Não existe, na minha visão, “um” processo criativo, o que existe são formas ou até mesmo rituais de trabalho. Mas a ideia para uma história pode vir de vários lugares, em várias circunstâncias. Você esqueceu de citar outra trilogia importante para o processo criativo que é sexo, drogas e rock n roll.

5. Qual foi o autor ou livro que, na sua infância ou adolescência, te fez gostar de ler, ter o prazer da leitura?
R. Muitos, a maioria eu renego hoje em dia. Como os quadrinhos, que li muito e hoje, quase nunca (desde clássicos, como Dick Tracy e Spirit até Disney e Maurício de Souza). Também li muitos livros de Agatha Christie, que na verdade foi quem me inspirou a escrever, pois aos 14 anos escrevi uma novela de mistério e assassinato que se chamava “Ela não está mais entre nós” ou algo do gênero. Irônico que hoje eu odeie livros policiais - não é que não gosto, eu realmente odeio - e a Lady Christie foi quem me levou a escrever. Por outro lado, de uma forma distorcida e estranha, em geral as coisas que escrevo estão cheias de um certo suspense que deve ser um resquício desse meu começo.

6. Se você tivesse uma máquina do tempo, que escritor(a) ou poeta do passado você desejaria encontrar?
R. Mas eu sempre estou pegando minha máquina do tempo e encontrando com vários escritores do passado. Para mim, essa máquina chama-se livro. Eu realmente não sou fã de conhecer escritores que admiro. Vamos descobrir que eles fedem, cospem no chão, são mal-educados. Existe um fetichismo pelo ser humano que não me interessa. O importante de um escritor são seus livros, não sua vida, sua beleza/feiúra, suas opiniões sobre as eleições no Irã ou sobre o Chávez. O importante, no final, é o texto. E ponto.


Marcelo Barbon nasceu em português, mas hoje vive em espanhol. É escritor, tradutor, editor e jornalista (além de fotógrafo e músico frustrado). Um dos fundadores do projeto Amauta Editorial http://amautaeditorial.wordpress.com, que trouxe ao Brasil escritores inéditos da vanguarda ibero-americana. Em 2007 publicou seu primeiro romance, Acaricia meu sonho, e em 2009 está na coletânea Geração 90/00 com outros 20 escritores brasileiros e que será publicada no Peru em agosto. Tem outros livros esperando por editoras. Mantém o blog pessoal Caderno de Escritura http://cadernodeescritura.wordpress.com, o blog Letras Portenhas sobre o mercado editorial argentino http://letrasportenhas.wordpress.com e o blog sobre turismo Direto de Buenos Aires http://viajeaqui.abril.com.br/blog/direto-de-buenos-aires.shtml, além de escrever uma coluna mensal sobre literatura latino-americana para o Cronópios.

3 comentários:

inacio carreira disse...

Foi legal "escutar" a fala do Marcelo, meu amigo virtual desde o balaio "frustrado" de letras... Pela primeira vez (ou segunda) vejo o rosto do Marcelo, que não mais é Barbão. Li "Acaricia meu sonho", é tudo o que o Marcelão conta na entrevista. Espero que ele mande (contra pagamento, claro) a coletânea onde irá novamente aparecer. Abraços. Saudades.

Neologo disse...

Hola Marcelazo! Tescribe Felipe El Mexicano (antes diplomático, hoy ser normal, ¿me recuerdas?).
Mencantó la entrevista, sobre todo porque a pesar de estar casi un 83% en desacuerdo con tu punto de vista en relación a la 'pureza autónoma' de una obra de arte, estoy en total sintonía con tu pasión.
Y ahora que lo pienso... con razón te nos perdiste de vista: ¡estás en Buenos Aires!
Enhorabuena y mi saludos
Felipe Ehrenberg
www.ehrenberg.art.br

Laura Fuentes disse...

Adorei a entrevista, ele é muito bem humorado e autêntico. Só a barba é que é propaganda falsa....rs