30.5.09

Das Coisas Inúteis


Ontem eu ouvi a voz de um pássaro. O que ele me disse? Vocês seriam capazes de matar se eu dissesse. Depois eu vi uma velha senhora maltrapilha sorrindo para mim como se eu fosse o filho que ela perdeu. Vi um cachorro esfregar as costas numa árvore e dormir entre as suas raízes, um sono profundo. Vi, no metrô, um homem que jurava que era um pirata, um velho salteador dos oceanos. Depois ouvi, na Igreja de São Bento, a oração de um outro, aos pés da cruz, que dizia: "Como é que pode, senhor, viver desejando o próprio fim?". Olhei para o céu e me lembrei que aquela bola branca, cheia, não era mais um deus. Assisti um documentário sobre John e Yoko, na cama, pela paz. Depois é que me dei conta de que não se tratava de um filme de fantasia. Um desconhecido me desejou BOM DIA e ele tinha menos do que trinta anos. Ontem eu consegui ficar 24 horas sem acessar o meu e-mail. Fiquei 10 minutos contemplando, pela primeira vez, um Tsuru que ganhei de presente à dois anos. Bebi um copo com água até a boca e pensei na água. Ouvi um menino de uns cinco anos contar para a mãe o que ele havia sonhado e a mãe, depois de ouvir, dizer: "Você fez a lição de casa?". No sonho do menino, ele, o pai e a mãe estavam nadando numa cachoeira. Vi, um catador de papelão, retirar do lixo uma casinha de bonecas e ajeitá-la com muito cuidado num lugar especial em seu carrinho. Olhei-me no espelho e tive a sensação de ser aquela a primeira vez que assistia a minha imagem refletida. Por fim, o que me fez aplicar um beliscão em mim mesmo, foi ver, enquanto estava na fila do banco, um dos caixas interromper o seu trabalho para espreguiçar e bocejar, depois abrir um sorriso e continuar o trabalho.

3 comentários:

Michele Prado disse...

... que bom ver as coisas como se fosse a primeira vez. lindo e emocionante o seu texto.

Kely Cristina S. Felício disse...

Falando em "clarões", acabei de ler a morte de Ivan Ilitch, de Tolstoi. Realmente passamos boa parte da vida blindados, encalabouçados em formatos que, ao invés de nos nutrir, nos aprisionam, nos cegam. Outro dia vi um morador de rua deitado, no começo da noite, em frente a uma loja de brinquedos. Nada mais denunciante e paradoxal, de um lado, uma fábrica de inventos,um cata-vento de possíveis. De outro, cerceamento, a infância negada, a invisibilidade, um possível tão espartilhado. Lindo o seu texto, em nome dos olhares possíveis. Kely

paulete miletta. disse...

coisa mais linda...

Imagem: Rogério Pinto