9.3.09

O Menino e a Cadeira

No porão da casa do menino tinha uma cadeira.
“Está morta”, ele sussurrou.
“Cadeira não tem alma, não vive nem morre” concluiu, tentando encher de lógica o seu coração.
Mas o menino tinha jeito de poeta,
e poeta crê que o ser humano não basta,
e poeta inventa o que no mundo não cabe.
Aproximou-se da cadeira e tentou firmá-la no chão.
Os pregos frouxos não lhe garantiam equilíbrio necessário.
Carregou-a nos braços como quem carrega o cachorro de estimação. Morto.
Foi para o quintal e plantou a cadeira na terra. Regou-lhe os pés.
Da janela do seu quarto a vigiava todos os dias.
Sob a chuva, o sol e a lua.

4 comentários:

Anônimo disse...

Que coisa mais linda, acho que, para as crianças as coisas são mesmo nascedouras só porque existem, que pena que a gente às vezes desnasce a criança de nós. Um abraço. Lindo demais.

Kely disse...

Essa historinha é de uma singeleza comovente, uma lição tão linda de cuidado com tudo o que vive, porque mesmo o que não vive pode adquirir vida, dependendo do calor que encontrar nos nossos corações. Viver de forma sagrada, única forma digna de viver, é impregnar cada minúcia de existência de sentido, de afeto, dar ninho, olhar no rosto. Esperar amando. Obrigada.

Daniela Patricia dos Santos disse...

Um gosto em conhecer esta casa, indicada pelo encantamento da Kely.
É certo que uma outra cadeira nasceu, onde me aconchego pra leitura dessa prosa boa daqui.

Linda as vidas paridas por palavras.

obrigada pelo encontro

Daniela

disse...

Olá! Aprecio seu blog e, de fato, já me perdi nos "labirintos no sótão" (rs). Em poucas palavras é possível perceber a profundidade com que o texto explora a metáfora entre o que somos e o que escrevemos, o que se planta e o que se espera colher na literatura...adorei! Aproveito o ensejo para presenteá-lo com selos. Passa lá! Bjins e até!

Imagem: Rogério Pinto