
1. Qual é o seu "lugar imaginário" favorito dentro da literatura?
R: Talvez, Hogwarts.
2. Se você entrasse no labirinto de Creta e deparasse com o Minotauro, o que você faria ou diria para ele?
R: Tentaria ser amiga dele.
3. Se você pudesse escolher ser um personagem da história da literatura, qual seria?
R: Vou ser bem prosaica: Cinderela.

4. Qual é a importância da imaginação, da memória e da observação em seu processo criativo? Aliás, quando e como você produz?
R: Se eu fosse colocar numa ordem, em primeiro lugar viria a observação, depois a imaginação e a memória. Eu acho que a observação é fundamental no trabalho do escritor, porque na verdade o ser humano é nossa matéria prima, é daí que sai o que caracteriza a literatura, o drama, o conflito, a superação, etc...A imaginação também é importante, pois é a maneira de falar com metáforas, de falar da realidade de modo simbólico. Essa ponte com a imaginação, essa facilidade de entrar em contato com ela, e isso exige certo treino, acho que é fundamental para você criar situações novas, engendrar enredos, personagens... É uma ponte com o próprio inconsciente, até com os deuses, para fazer uma matéria disso, algo que se condensa na realidade.
Já a memória, acho que depende do tipo de trabalho. Há autores que tem como matéria prima as lembranças e memórias, já outros criam um universo novo, fantástico. De qualquer maneira, eu acho que a memória é uma coisa ampla, pois você pode tanto ter uma memória de fatos, de dados, ocorrências, quanto você pode ter memórias afetivas, sensações , emoções, por exemplo.
Quanto ao meu modo de trabalho, eu tenho uma disciplina, tenho horário para trabalhar, acordo cedo... Durante o dia estou mais descansada do que a noite. Para mim não é uma busca de inspiração, é trabalho mesmo, mas nem sempre dá para cumprir a rotina, mas eu gosto da rotina. Na verdade a rotina é uma sistematização, não tem nada haver com monotonia. A rotina é o que te permite fazer um trabalho literário, pois o trabalho literário é lento e constante, não adianta você ter uma chama de entusiasmo muito grande, porque não é isso que faz o trabalho acontecer, nem o texto, nem a ilustração, você precisa manter aquela chama do entusiasmo e da inspiração constantemente, não deixar pegar fogo, nem apagar. Isso não é tudo, mas é uma das condições fundamentais para realizar o trabalho.

5. Qual foi o autor que na sua infância ou adolescência, te fez gostar de ler, ter o prazer da leitura?
R: Andersen.
6. Se você tivesse uma máquina do tempo, que escritor(a) ou poeta do passado você desejaria encontrar?
R: São tantos escritores...Mas acho que vou escolher um artista plástico: Paul Klee.

7. Qual foi o último livro que você leu e recomenda?
R: Eu recomendaria dois: O azul da virgem, da Tracy Chevalier. E outro que eu adorei é o Lugar Nenhum, do Neil Gaiman.

8. O que você diria para um escritor em início de carreira que está se dedicando a literatura infantil e juvenil?
R: Em primeiro lugar eu vou dizer uma coisa: é difícil, pois não existe formação. Atualmente existem muitas oficinas literárias, que acho bacana. Agora, um escritor especificamente de literatura infantil... Bem, eu acho que escrever para crianças é até uma coisa mais complexa, pois você tem mais limitações, você tem que seguir certa ética, você tem que prender a atenção da criança mais do que o adulto, pois o adulto ainda lê por obrigação, por outros interesses, etc. A criança talvez leia obrigada para escola, mas a criança é muito sincera, se ela não gostar da história, ela larga no meio. Ao escritor iniciante eu diria para ele fugir dos estereótipos, do lugar comum, da coisa já feita e buscar dentro de si aquilo que acredita, e escrever como se estivesse contando para uma criança. E por mais complexo que seja o assunto, não é o problema em si que precisa ser infantil, é a linguagem. Então, eu aconselharia o escritor a fazer para si e não para criança, pensar no que ele gostaria de ouvir, o que ele acha divertido, emocionante, de verdade, não de mentira, não para ganhar prêmios, mas para si e não para o outro, aquilo que ele realmente acredita. Aí eu acho que ele conseguirá fazer um trabalho mais profundo e original. E a partir do momento que você está acreditando no seu trabalho, mostrar para uma criança, para um adulto. A escuta qualificada dá um retorno importante, pode ser tanto por alguém que entenda do assunto quanto da própria criança. Outra dica é ler em voz alta, pedir para outra pessoa ler para você. E depois, quando você estiver mais confiante, procurar editoras, etc. Ver o que foi escrito por aí, encontrar identificações com outros autores, em geral nos identificamos com quem temos afinidades e isso sempre é uma boa pista.

9. Como foi a experiência de ter ilustrado a obra infantil de Érico Veríssimo? O que você acha do Érico escritor para crianças?
R: Eu adoro a obra para adulto do Érico Veríssimo. Acho que ele tem uma obra realmente maravilhosa. Mas quanto aos livros infantis, eu vou ser bem sincera, as histórias são ótimas, o único problema é que houve uma mudança no tempo e isso não tem nada haver com a qualidade do texto do Érico e, cinquenta anos depois, as crianças de hoje tem outro ritmo, isso também acontece em relação à obra do Monteiro Lobato. O ritmo do mundo mudou, as crianças de hoje, talvez por causa da televisão, do cinema, dos comercias que contam histórias em trinta segundos, começaram a se acostumar com histórias rápidas, contadas ou de uma maneira muito emocionante ou muito objetiva, antigamente tinham longas descrições não tinha essa oferta de cinema e televisão. Hoje um monte de coisa tem referências você não precisa descrever milhões de detalhes, etc. Então eu acho que esse trabalho do Érico Veríssimo é maravilhoso, com idéias muito boas, mas em relação a esse ritmo, ele acaba ficando lento para as crianças de hoje, isso é o que eu acho. Eu gostei muito de fazer o trabalho e creio que os livros ficaram muito bacanas. Eu fiquei muito orgulhosa em participar desse projeto. E o que eu estou dizendo tem haver com as mudanças do mundo, provavelmente daqui a cinqüenta anos, as crianças irão achar os nossos livros lentos também. 
Eva Furnari é escritora e ilustradora. É um dos nomes mais importantes da literatura literatura infantil no Brasil. Nasceu em Roma em 1948 e em 1950 a família mudou-se para o Brasil, radicando-se em São Paulo. Formou-se em arquitetura pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo - FAU/USP. Participou de diversas exposições de desenhos e pinturas. Foi professora no Atelier de Artes Plásticas do Museu Lasar Segall, em São Paulo. O desenho foi o seu primeiro meio de expressão artística - mas, aos poucos, introduziu o texto em seus trabalhos. Essa mudança ocorreu lentamente, com brincadeiras de rimas e travalínguas, evoluindo, mais tarde, para valorizar igualmente ilustração e texto. Sua obra, composta de mais de 50 títulos, com importantes premiações, compõe-se, em sua maioria de pequenos livros que, com uma linguagem lúdica construída com lápis de cor, tintas e crayon, discute conflitos, problemas e questões da experiência humana. Tem livros publicados na Itália, México, Equador, Guatemala, Colômbia e Bolívia.
12 comentários:
eita, que legal. adorei.
como eu gostava da bruxinha...
aliás, hoje estou trabalhando na produção e montagem de uma adaptação de um livro da Eva para os palcos... Cacoete (e já tem estréia marcada pra abril).
te aviso!
(também adorei a fanny, ela uma pessoa fofa, dessas que dá vontade de abraçar) rss
malufitos. saudades. e parabéns pelo blog.
beijo grande.
Ai, que delícia o seu blog, Marcelo!!
Na década de 70 convivi com a Eva no museu Lazar Segall, tive a oportunidade de ver seus primeiros desenhos para livros, belíssimos guardados ainda em gavetas sem coragem de apresentar às editoras, em seguida foi o que foi, um livro super legal atrás do outro!!
Incrível a entrevista com a Eva Furnari. Seu trabalho é martavilhoso, conheço há muito, muito tempo, e sou superfã dela. Tudo o que Eva falou só fez crescer a minha admiração.
Bjs aos dois, Marcelo e Eva!
Ah! O segredo do violinista é um barato!
Tânia
Que delícia a entrevista com a Eva. Parabéns por trazer essas pessoas fantásticas para dentro do labirinto.
Abração
Olá. Estou aqui para lhe informar que você ganhou o selo "Olha Que Blog Maneiro!" Passe no blog www.peramblogando.blogspot.com para retirar o selo. Parabéns!
oi, marcelo... como gosto muito das suas, digamos, análises de livros tomei a liberdade de "pegar emprestado" uma delas em meu blog... toda segunda tb dou uma dica de um livro por lá e... espero que não se importe... coloquei os devidos créditos... acho que ficou legal... ah, adorei tb essa entrevista com a ilustradora Eva Furnari!
bjos
Oi, Marcelo!
Não pense que abandonei o Sótão. Apenas precisei de um tempo para respirar. Li quase tudo e está fantástico. Vou contar um segredo: minha tia já viu um duende, ninguém acreditou,somente eu!
Sucesso para seu livro e suas publicações.
Abraços
olá...Venho tentando de todas as formas um contato por email com Eva Furnari. Gostaria muito de enviar fotos sobre o projeto que realizei com meus alunos através do livro dos "NÓS", durante o decorrer deste ano. gostaria que ela pudesse dar um retorno mesmo que fosse por email para os meus alunos, isso seria muito gratificante, principalmente por saber que os autores não só escrevem mas também trocam idéias. As outras turmas da escola onde leciono estão trabalhando Ruth Rocha, Ziraldo, Maurício de Souza, entre outros, foi muito fácil o acesso pela internet a estes escritores, porém não consegui encontrar nenhum site dela e nenhuma forma de comunicação. ENTÃO, PEÇO POR FAVOR MARCELO QUE SE POR ACASO HOUVER COMO PASSAR O EMAIL DELA FICARIA MUITO AGRADECIDA.
Olá Rosana,
Peço, por favor, que me escreva em malufmarcelo@gmail.com
Abraço,
Marcelo
:)
eu e meus alunos lemos o livro de eva: o amigo da bruxinha e o adoramos, fizemos algmas ilustrações de como somos, pra q eva possa saber quem são os leitores de seus livros e queriamos enviar-lhe estas produções. Como podemos fazer isso? há um site da eva? ou e-mail? nos ajudem. obrigada. professora eliane braga. meu email: lanebraga@gmail.com
bjs a todos
que bom encontrar seu blog. me chamo solange e sou professora do 1º ano na rede municipal de sorocaba. estou trabalhando com a minha turma o livro Felpo Filva, o que resultou num agradável chá com bolinhos de chocolate do vovò Felma no dia das mães. e parece que não paramos por aí, as crianças estão fazendo um pequeno livro de brincadeiras e gostariam de ensinar para o Felpo e para a Charlô. será que você conseguiria um contato com a Eva Furnari prá gente??
aqui vai meu e-mail: solima66@hotmail.com. estamos na torcida
abçs
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