14.11.08

Oito passos para criar uma biblioteca doméstica


Jean-Paul Sartre dizia que assim como o museu sufoca a veemência da pintura, as bibliotecas transformam em “mensagens”, escritos que foram antes de mais nada gestos de um homem. Jorge Luis Borges em sua biblioteca de Babel nos apresenta a labiríntica e fantástica biblioteca, que alguns chamam de universo, onde é preciso descobrir, cavoucar as suas galerias e estantes para encontrar algum tesouro, talvez. O livro.
Aqui o meu desejo é menos pretensioso do que os de Sartre e Borges em seus encontros com esse espaço com estantes e livros que chamamos de biblioteca. Quero apenas expor algumas idéias para a construção e manutenção de uma biblioteca doméstica. Talvez a biblioteca virtual esteja hoje mais próxima de nós do que a biblioteca impressa, mas ainda prefiro os homens-livros de Ray Bradbury em Fahrenheit 451, do que a idéia de uma biblioteca impalpável.
Para viver e morrer em uma biblioteca doméstica é preciso seguir alguns passos. Vou resumi-los em oito:
1. Não limpe nunca os livros. Eles denunciarão a você a sua própria estupidez e ignorância ao constatar os clássicos que você comprou e nunca leu. O pó acumulado também é um jeito de perceber autores de sua predileção e de sua maldição.
2. Tenha uma prateleira com livros mais “leves”, não em seu peso físico, mas naquilo que é considerado academicamente, com ares de arrogância intelectual, literatura “menor”. Por incrível que pareça, eles podem te salvar de perder o prazer da leitura.
3. Quando optar por ler um livro, não desvie o seu olhar para as prateleiras. Os livros são seres carentes e ciumentos. Farão de tudo para que você acredite que o livro que está em suas mãos não presta. Nesta batalha você será o perdedor, pois não chegará a concluir a leitura de nenhum, caso deixe se envolver por essa sordidez.
4. Pense muito bem antes de comprar e levar um livro para a sua biblioteca. Faça a seguinte pergunta: os outros livros irão gostar deste novo companheiro? Caso a resposta seja negativa, não leve. Os livros são informantes das traças e podem, para matar o inimigo, atraí-las para a sua casa.
5. Não caia em tentação. Não organize os livros por ordem alfabética, seja por sobrenome de autor ou por título. Depois de tanto trabalho você não irá querer tirá-los da prateleira. Esqueça.
6. Jamais cultue a sua biblioteca como um lugar sagrado, você pode afugentar os demônios dos livros.
7. Seja você escritor, poeta ou leitor, viva em sua biblioteca como um homem comum. Os livros não falam com gente que se leva a sério demais.
8. Quando perceber que a sua vida está chegando ao fim, faça uma faxina geral em sua biblioteca. Reflita sobre todos os livros que você não leu e ria na cara deles. Não doe, não venda, não transforme a sua biblioteca doméstica em uma biblioteca pública. Encaixote os livros e enterre tudo em algum lugar qualquer para que, algum dia, alguém os encontre. Os livros precisam ser cavoucados, descobertos em segredo, senão morrem de agonia em solidão profunda. Para que os outros possam fazer deles não uma, mas várias novas bibliotecas domésticas.

6 comentários:

may shuravel disse...

Adorei suas recomendações! A primeira já sigo desde sempre, mas agora será sem culpa.Passarei a seguir as outras,com certeza.E parabéns pelo blog, acompanho fielmente com muito prazer.
um abraço
may

Paulo Unzer disse...

ótimas recomendações.

Ler é uma tarefa solitária. Quem se sente solitário procura algum livro para aumentar o repertório de vidas possíveis.

O próprio Sartre nos diz que conheceu o mundo através das palavras e dos livros.

Abç,
Paulo Unzer

www.osubterraqueo.blogspot.com

Petê disse...

Já havia passado aqui algumas vezes e agora reconheço que já nos encontramos, em uma palestra do Luiz Bras e da Tereza Yamashita sobre Contos de Fadas (eu acho que foi lá). E todas essas dicas (algumas já praticadas), vou segui-las à risca.

Grande abraço

alexandre guardiola disse...

biblioteca ideal?

Bruno Cobbi disse...

Olá Marcelo!

Acrescento duas dicas nesse seu arsenal imprescindível para o bibliotecário amador:

1. Entrada liberada para anotações, rabiscos e notas de pés de página. Elas aumentam a energia chi da obra e estreitam a ligação entre o livro e seu dono! Os post-it também são uma ótima forma de domar seus livros preferidos!

2. Crie seus próprios marcadores de livros e seja criativo! Faça recortes, imprima figuras legais e, crie um marcador para cada livro que você ler! Lembre-se que ele será seu guia durante toda aquela jornada de imaginação, será um mentor pelo caminho dessa aventura e um companheiro inseparável durante toda a viagem maluca pelo mundo dos livros. Por tudo isso, os marcadores merecem um cuidado todo especial!

Cristiane disse...

Sensacional este post, Marcelo!
Só maluco mesmo para ser leitor.
Que bom!!
Beijos

Imagem: Rogério Pinto