17.9.08

Conversas no Sótão com Pedro Maciel




O meu entrevistado da vez é o escritor Pedro Maciel. E assim se deu a nossa conversa no sótão:




1. Qual é o seu "lugar imaginário" favorito dentro da literatura?
R.
Os meus lugares e tempos imaginários favoritos encontram-se em meus pensamentos porque aprendi a divagar e a sonhar. Eles também se encontram em muitos outros lugares inimagináveis e no no poema intitulado “O Nosso”, de Jorge Luis Borges: “Amamos o que não conhecemos, o já perdido./ O bairro que foi arredores./ Os antigos que não nos decepcionarão mais/ porque são mito e esplendor./ Os seis volumes de Schopenhauer que jamais terminamos de ler./ A saudade, não a leitura, da segunda parte do Quixote./ O Oriente que, na verdade, não existe para o afegão, o persa ou o tártaro./ Os mais velhos, com quem não conseguiríamos/ conversar durante um quarto de hora./ As mutantes formas da memória, que está feita do esquecido./ Os idiomas que mal deciframos./ Um ou outro verso latino ou saxão que não é mais do que um hábito./ Os amigos que não podem faltar porque já morreram./ O ilimitado nome de Shakespeare./ A mulher que está a nosso lado e que é tão diversa./ O xadrez e a álgebra, que não sei.”







2. Se você entrasse no labirinto de Creta e deparasse com o Minotauro, o que você faria ou diria para ele?
R.
Falaria sobre a memória e o tempo perdido. O futuro incerto e o vão do passado. Os relógios de bolso e os dias dos nossos antepassados. As janelas abertas e suas noites claras. O frio da escuridão e o calor da luz. O princípio e o fim de tudo. Falaria sobre mim e os meus personagens que não representam nada.
Ouviria atentamente o eco dos meus sonhos para tentar me conhecer, quero dizer, reconhecer. "Podemos conhecer tudo, exceto nós mesmos".







3. Se você pudesse escolher ser um personagem da história da literatura, qual seria?
R.
Fedro, discípulo de Sócrates. Em “Eupalinos ou O Arquiteto - Escritos de Circunstância (1921)”, de Paul Valéry, pode-se constatar a amizade dos dois. Valéry, poeta-crítico, cria um clássico a partir de um diálogo imaginário entre Sócrates e Fedro. Dialogue des Morts era como seria chamado o texto em sua primeira edição. Fedro e Sócrates habitam as noites alucinadas do inferno. Paira sobre eles a idéia da reflexão dos mortos. Conversam sobre as limitações e emoções de uma vida.







4. Qual é a importância da imaginação e da memória em seu processo criativo?
R.
Ouço diariamente a minha imaginação; às vezes ela finge que está morta mas está apenas adormecida nas profundezas do inconsciente. Tenho consciência das minhas inconsciências. O sonho é a sombra da memória. Será que sofro de sonhos? Sonho, fábula da memória; um dia vou retornar com os pássaros para traçar o itinerário de minha fuga. Para mim, o sonho é sempre uma outra história de vida, enquanto a história é sempre um outro sonho de vida. Eu nunca tive um sonho de vida. Eu nem sempre quer dizer eu mesmo.







5. Qual foi o autor ou livro que, na sua infância ou adolescência, te fez gostar de ler, ter o prazer da leitura?
R.
“Grande Sertão: Veredas” (1956), de Guimarães Rosa, clássico da literatura brasileira. Rosa reinventa a paisagem remota do sertão, onde “o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar”. Lugar não-localizável. Lugar lúdico, metafísico, fabuloso, ligado à oralidade e ao mito. “Ilhas sem lugar”, como muito bem definiu Fernando Pessoa.
A história do “Grande Sertão” nos remete a um lugar assombrado, de um falar incomum, habitado por Riobaldo, o Urutú-Branco, Diadorim, cordeiro de Deus, Hermógenes, o diabo, o menino Guirigó, o cego Borromeu e Maria Boa-sorte, entre tantos outros personagens místicos, que traçam uma espécie de roteiro de Deus. Riobaldo diz que “às vezes a gente só pode ver o aproximo de Deus na figura do outro”.
“Grande Sertão: Veredas” é um manual de satanismo, ação lendária, epopéia/saga do sertão e seus vazios, que é o profundo da gente mesmo; reescritura dos romances medievais, épico, discussão entre Deus e o diabo.








6. Se você tivesse uma máquina do tempo, que escritor(a) ou poeta do passado você desejaria encontrar?
R.
Franz Kafka, autor que viveu sob a influência do imaginário de três culturas: a alemã, a tcheca e a judaica. Em toda a obra de Kafka, nota-se uma profunda semelhança entre a realidade cotidiana do autor e seus personagens autoritários e inatingíveis que atormentam a vida do anti-herói Josefh K. de “O processo” e do agrimensor em “O castelo”. Os conflitos familiares, os amores contrariados, a doença, a opressão da guerra, incentivaram-no a criar uma obra marcada por situações de subordinação, desprezo e desilusão; situações intoleráveis.
Segundo Camus, “sua obra é universal (uma obra realmente absurda não é universal) na medida em que nela aparece o rosto comovente do homem fugindo da humanidade, extraindo de suas contradições razões para acreditar e de seus desesperos fecundas razões para esperar, e chamando de vida sua apavorante aprendizagem da morte. É universal porque sua inspiração é religiosa. Como em todas as religiões, o homem ali se libertou do peso de sua própria vida”.
Apesar dos ventos contrários, apesar da inglória e da solidão, Kafka sonhou com o paraíso. O paraíso perdido. Para Kafka, “há dois pecados capitais, de que derivam todos os outros: a impaciência e a preguiça. Devido à impaciência fomos expulsos do Paraíso; devido à preguiça não conseguiremos retornar a ele. Pensando bem, talvez a impaciência seja o mais capital dos pecados: foi por ela que o perdemos, é por ela que não o temos de volta”. O paraíso de Kafka também se encontra debaixo de nossos olhos, ao alcance do nosso desejo. Para ele, o paraíso é como “uma estrada, no outono: basta varrê-la para que de novo se cubra de folhas mortas”.
Na verdade uma grande parte da obra de Kafka, o que também pode-se dizer de Borges, é uma reescritura de episódios históricos, fábulas e contos populares. Kafka está inserido no movimento dos escritores expressionistas, mas os relatos kafkanianos é a história que sonha a civilização contemporânea.




Pedro Maciel é um mineiro com menos de meio século de idas e vindas. Não gosta de colecionar recordações ou calendários. Prefere perder o tempo da memória – a ficar parado na esquina – como se estivesse em movimento. Um exemplo é sua autobiografia: “Tento uma nova maneira de contar histórias e reinauguro a minha própria existência que estava a cargo de exercícios poéticos e ensaios jornalísticos. Estava morto e não sabia. Só agora lembro que estou mais vivo do que os meus antepassados. De hoje em diante tenho todo o tempo do mundo para transcrever um sentimento para cada realidade e um pensamento para cada sonho.” Eis os dados mais concretos desse escritor originalíssimo.

1 comentários:

José Aloise disse...

Caro amigo Pedro Maciel, gostei muito da entrevista. A resposta que vc deu para a pergunta número três, citando Fedro do Eupalinos de Valéry, faz lembrar "A Hora dos Náufragos". No sotão, na rabeira, no fundo, na esteira do navio, vejo nesta resposta lúcida reflexões sobre esse animal - o homem - em constante mutação - vida e morte - e um baita desejo de estar sempre renascendo... Assim também é a sua literatura: renascimento... Abração do Josealoisebahiabhzmg...

Imagem: Rogério Pinto