27.8.08

Na esteira com Drummond



A experiência de ouvir poemas do Carlos Drummond fazendo Cooper na esteira me é inteiramente nova. Já li (não ouvi) Drummond no ônibus, no banco da praça, no banheiro, debaixo de árvores velhas, deitado na cama, no sofá da sala, na sala de aula (quando a aula estava entediante), na biblioteca Mário de Andrade, no computador, na praia, na montanha, deitado na grama ao lado da moça e em pé no metrô. Mas desta vez o meu MP3 fez um milagre. As academias nunca me agradaram com seus ambientes cheios de soluções artificiais para uma vida melhor.
Com o meu ouvido desplugado daquele universo, ouvindo ali os poemas lidos e interpretados por figuras como Paulo Autran, Antonio Cícero, Paulo César Pereio e o próprio poeta entre outros, é que o fato de estar correndo para o Nada naquela esteira fez todo sentido. Pude mirar a parede lá no fundo. Quase infinito. Sentir a vibração das televisões ligadas nos seriados americanos, o som do rádio tocando, quase imperceptível, o novo sucesso da Madonna. E não é que aquilo fez todo o sentido mesmo? Sentido de estar ali, de mãos dadas com o poeta, reduzindo a minha camada de gordura genética, desentupindo as minhas veias, salvando-me do colesterol.
Pela primeira vez olhei com humanidade para aqueles aparelhos, e como eles eram uma perfeita instalação para as palavras e versos do poeta mineiro.
Não sei se posso falar em salvação. Talvez esta não seja a palavra certa. A Salvação não tem nenhuma intimidade com a poesia. Acho que a palavra certa é Misericórdia. O poeta teve misericórdia e lançou os seus versos eternos e se doou para a coisa mais banal. Foi generoso e não quis, em hipótese alguma, competir com aquela parafernália toda.
Apenas me abriu os ouvidos e me fez escutar com os olhos. Pôs-se a afinar o sangue em minhas veias e continuou a penetrá-las surdamente. Esta vida menor. Mínima. Essencial.


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Imagem: Rogério Pinto