

O entrevistado da vez é o premiado e querido escritor Jorge Miguel Marinho. Assim se deu a nossa conversa no sótão:
1. Qual é o seu “lugar imaginário” favorito dentro da literatura?
R. Exatamente aquele lugar em que uma palavra se encontra com outra, às vezes por pura necessidade de uma em busca da outra, não poucas vezes por acaso, não raro nas entrelinhas, no som quase silencioso, no contraste ou comunhão de dois ou três ou vários sentidos que se multiplicam numa rota que é sempre busca de outros sentidos, na frente, dentro ou atrás das próprias palavras, numa esquina, num quarto, numa breve caverna de poesia que é o lugar das revelações e onde estas palavras humanamente atiradas na vida, como iscas no anzol, só querem viver a aventura de “fazer existir o que ainda não existe na vida” e tem urgência de existir naquela enseada de fantasia e realidade como ‘promessa de um mundo sempre melhor’.
R. Exatamente aquele lugar em que uma palavra se encontra com outra, às vezes por pura necessidade de uma em busca da outra, não poucas vezes por acaso, não raro nas entrelinhas, no som quase silencioso, no contraste ou comunhão de dois ou três ou vários sentidos que se multiplicam numa rota que é sempre busca de outros sentidos, na frente, dentro ou atrás das próprias palavras, numa esquina, num quarto, numa breve caverna de poesia que é o lugar das revelações e onde estas palavras humanamente atiradas na vida, como iscas no anzol, só querem viver a aventura de “fazer existir o que ainda não existe na vida” e tem urgência de existir naquela enseada de fantasia e realidade como ‘promessa de um mundo sempre melhor’.
2. Se você entrasse num labirinto de Creta e deparasse com o Minotauro, o que você faria ou diria para ele?
R. “Não estás aqui, amado Minotauro, pela tua livre vontade, mas deves fazer da vontade, que é a tua porção melhor, a tua livre permanência aqui. És fruto do amor ao contrário, da união das diferenças, do gesto proibido da paixão e, por isso mesmo, não apenas a tua casa exterior é labiríntica, mas também e sobretudo a tua moradia interior é puríssimo “labirinto”, cruzamento de acidentes e essências geográficas, eterno norte de procura que provisoriamente chamamos de amor. Não tens necessidade de devorar a carne virgem dos jovens e porosamente farta de acidentes e essências igualmente apaixonadas – precisas apenas, por natureza tua, fazer das vielas, curvas e corredores da tua casa, de fora e de dentro, hoje e sempre, os jardins mais desconhecidos e impossíveis do amor que, vivido no êxtase e na paz do teu, do meu, do nosso “labirinto” mais íntimo e intocável, é puríssimo trajeto de revelações.
Acredita em mim, amado Minotauro, que, na minha terna solidão, faço com o novelo de lã de Ariadne não o fio do trajeto correto e exato que somente engana, mas enovelo e tranço com ele o tecido do sonho e da realidade que é o nosso Labirinto melhor.
3.Se você pudesse escolher ser um personagem da história da literatura, qual seria?
R.Vários... Às segundas, Capitu de Dom Casmurro, de Machado de Assis, para trair, desacomodar e subverter todas as rotinas e disciplinas universais. Às terças, Robin Hood para roubar dos ricos e dar aos desvalidos, dividindo as riquezas e socializando a felicidade material, como fiel escudeiro da turma de São Francisco de Assis e Santa Isabel, que militaram lindamente nas trincheiras da justiça social. Às quartas, que fica bem no meio da semana, queria ser o narrador do conto “Carta a uma senhorita em Paris”, de Julio Cortázar, que se põe a”vomitar coelhinhos” involuntariamente de uma hora para outra e descobre que estes coelhinhos que viviam clandestinos no seu mundo mais íntimo se tornam sua parte melhor. Às quintas, Macunaíma passeando no Centro da cidade com o palhaço Piolim, levantando as saias das moças, comendo um bauru no Ponto Chic, vendendo sonhos no Viaduto do Chá, dormindo de boca aberta com sua amada Ci no Parque do Trianon antes de virar a constelação Ursa Maior. Às sextas, vestiria as roupas de Charlie Chaplin e entraria no livro Vidas Secas para ensinar Fabiano a roubar uma cama de couro para Sinhá Vitória, sua mulher, e dar tanta porrada no Soldado Amarelo até ele virar cabo de vassoura em ano sem eleição. Aos sábados faria questão de ser eu mesmo que não sou personagem de livro, mas sou herói das minhas ilusões. Aos domingos, ser a escultora chamada G.H. do livro A paixão segundo G.H. de Clarice Lispector para, fazendo uma bela faxina no seu apartamento, acabar fazendo uma viagem nas suas origens mais existenciais e sempre voltar com aquele passaporte, o passaporte que nos leva sempre para dentro de nós. E, muito provavelmente, na outra semana, ia vestir a máscara de outros personagens que iam me ajudar a viver outras vidas e a me tornar cada vez mais muito mais real.
4. Qual é a importância da imaginação no seu processo criativo?
R. A imaginação é tão importante no meu processo criativo que, na vida real, o meu imaginário é o meu melhor modo de ser.
R. A imaginação é tão importante no meu processo criativo que, na vida real, o meu imaginário é o meu melhor modo de ser.
5. Qual foi o autor que, na sua infância ou adolescência, te fez gostar de ler, ter o prazer da leitura?
R. Eu só li o primeiro livro na minha vida quando tinha quinze anos e foi Os padres também amam da Adelaide Carraro, um romance apelativo, pornográfico, de sacanagem mesmo. Acontece que venho de família muito pobre, estudava numa escola de madeira com duas salas e sem livros e não havia biblioteca no meu bairro. Um dia vi uma moça lendo um livro escondido atrás do guarda-roupa da minha casa e, como já era muito xereta – traço de muitos escritores - na primeira oportunidade, peguei a OBRA e li como quem come eroticamente um chocolate pela primeira vez. Comecei com a pornografia de Adelaide Carraro e cheguei à metafísica de Clarice Lispector e hoje sou um leitor obstinado que entende que a literatura deve sempre estar a serviço da vida e todo mundo tem o direito de viver a experiência imperdível de ler.
6. Se você tivesse uma máquina do tempo, que escritor(a) do passado você desejaria encontrar?
R. Sem a mais remota possibilidade de dúvida, seria com Clarice Lispector, a escritora que eu pedi à vida e a vida generosamente me deu. Para que essa minha resposta fique transparente como água dentro da água, vão aqui dois breves poemas que eu escrevi para ela:
A Existência do Ovo
Clarice nasceu de um ovo
sem começo nem fim.
Ela sabia que todo ovo
é infinito,
que decifrar um ovo
é trabalho de punção
e maciez,
tudo no ponto.
Preferiu voar para o ovo
sem quebrar a casca,
apenas abrir as asas
e inchar o peito
como ave voando para dentro.
sem começo nem fim.
Ela sabia que todo ovo
é infinito,
que decifrar um ovo
é trabalho de punção
e maciez,
tudo no ponto.
Preferiu voar para o ovo
sem quebrar a casca,
apenas abrir as asas
e inchar o peito
como ave voando para dentro.
Clarice Lispector
Tinha uma flor-de-lis no peito
e era uma dona de casa
que batia claras
e escrevia histórias
de uma alegria triste.
Viveu sempre por um quase
e quase chegou
à cicatriz da gema que não existe.
Tinha uma flor-de-lis no peito
e era uma dona de casa
que batia claras
e escrevia histórias
de uma alegria triste.
Viveu sempre por um quase
e quase chegou
à cicatriz da gema que não existe.
***
Clarice,
quando o tempo passar
e as palavras forem pequenos
silêncios,
abre aquela página e lembra
que é bom esquecer uma felicidade
que se tem
e lembrar dela de repente
e que dar a mão a alguém
é tudo o que se espera da alegria
e que amar não acaba nunca,
amar a gente pode sempre.
quando o tempo passar
e as palavras forem pequenos
silêncios,
abre aquela página e lembra
que é bom esquecer uma felicidade
que se tem
e lembrar dela de repente
e que dar a mão a alguém
é tudo o que se espera da alegria
e que amar não acaba nunca,
amar a gente pode sempre.
Jorge Miguel Marinho
Nasceu no Rio de Janeiro e logo veio morar em São Paulo para sempre, segundo ele, sua paisagem interior e onde sente viver e escrever mais humanamente. Fez Letras e mestrado na USP, é professor de Literatura, coordenador de oficinas de criação literária, roteirista, ensaísta e ator. Roteirizou o vídeo Mário, um homem desinfeliz, em comemoração ao centenário de nascimento de Mário de Andrade, protagonizando também o Poeta.Tem 25 livros publicados e vários prêmios: entre eles, A visitação do amor, prêmio Melhor livro para jovem pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil – FNLIJ; Na curva das emoções, prêmio APCA; Te dou a lua amanhã, prêmio Jabuti; Lis no peito: um livro que pede perdão, prêmio Orígenes Lessa – O melhor livro para jovem, pela FNLIJ; O cavaleiro da tristíssima figura, 9° Troféu HQMIX. E integrou o Catálogo White Ravens da Biblioteca de Munique e o da Feira de Bolonha, em 2006, como um dos 225 melhores livros de todos os países do mundo.Tem contos publicados nos Estados Unidos, na França e em países da América Latina. Com o conto Eros de luto, representou o Brasil na co-edição latino-americana promovida pelo CERLALC e UNESCO Subidos de Tono, ou O amor em tom maior, livro em que figuram Juan Rulfo, Alonso Cueto e Senel Paz. No mais, tem a felicidade de escrever para crianças e jovens que vão lendo as suas histórias e o motivam a escrever mais. E tem muitos amigos, sua graça maior.
Nasceu no Rio de Janeiro e logo veio morar em São Paulo para sempre, segundo ele, sua paisagem interior e onde sente viver e escrever mais humanamente. Fez Letras e mestrado na USP, é professor de Literatura, coordenador de oficinas de criação literária, roteirista, ensaísta e ator. Roteirizou o vídeo Mário, um homem desinfeliz, em comemoração ao centenário de nascimento de Mário de Andrade, protagonizando também o Poeta.Tem 25 livros publicados e vários prêmios: entre eles, A visitação do amor, prêmio Melhor livro para jovem pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil – FNLIJ; Na curva das emoções, prêmio APCA; Te dou a lua amanhã, prêmio Jabuti; Lis no peito: um livro que pede perdão, prêmio Orígenes Lessa – O melhor livro para jovem, pela FNLIJ; O cavaleiro da tristíssima figura, 9° Troféu HQMIX. E integrou o Catálogo White Ravens da Biblioteca de Munique e o da Feira de Bolonha, em 2006, como um dos 225 melhores livros de todos os países do mundo.Tem contos publicados nos Estados Unidos, na França e em países da América Latina. Com o conto Eros de luto, representou o Brasil na co-edição latino-americana promovida pelo CERLALC e UNESCO Subidos de Tono, ou O amor em tom maior, livro em que figuram Juan Rulfo, Alonso Cueto e Senel Paz. No mais, tem a felicidade de escrever para crianças e jovens que vão lendo as suas histórias e o motivam a escrever mais. E tem muitos amigos, sua graça maior.
2 comentários:
Gosto muito de "O cavaleiro da Tristíssima figura", lido há alguns anos e "Lis no peito, um livro que pede perdão", lido há menos tempo. Dono de uma prosa da mais alta qualidade, só tenho que dizer que Jorge M. Marinho mais do que nos enriquece com suas obras literárias.
Tânia Alexandre Martinelli
taniamartinelli@terra.com.br
Essa dupla é incrível: Jorge e Maluf. Uma delicia de post, recomendarei aos amigos e inimigos. Os últimos, para que possam se esquecer de mim (sob a graça da Nossa Senhora dos Esquecidos) e se deliciarem com coisas muito mais nobres e importantes que a vida nos oferece. Muito carinho aos dois escritores aos quais desejo muito sucesso. Denise Ortiz.
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