10.6.08

O Líder - Ilustrações de Luisa Brandt

Eu pedia insetos. Eram crocantes e amargos. Cheguei a comer de uma só vez cinco moscas, três aranhas, vinte pernilongos e duas joaninhas. As joaninhas eu não gostava de comer, é que trazia por elas um afeto franciscano.
Mantinha-me forte diante dos meus servos, quando voltava para casa vomitava as tripas e bebia litros d’água. Mas não era à toa que comia os insetos. Por mim, os garotos roubavam Toblerones, balas Toffe, marshmellows, paçoquinhas, pirulitos e sorvetes Yopa de Prestígio nos supermercados, e me traziam sucos de morango e bolos de chocolate que suas mães preparavam, enganadas pelos filhos que diziam tratar-se de gincana no colégio.
Os garotos iniciaram uma disputa para saber quem encontraria o maior inseto. Eu disse para que não se preocupassem, os insetos que me traziam já eram de bom tamanho. De nada adiantou. Passei a comer besouros com chifre, baratas d’água, marimbondos, traças, siriris, muriçocas, tanajuras, cupins australianos e outras espécies esquisitas de insetos que os meus lacaios conseguiam de toda parte.
Trouxeram-me um grilo gigantesco.
O inseto era verde e tinha o tamanho de minha mão. Todos esperavam eu devorar aquele bicho. Peguei-o pelos pés e abri a minha boca.
O grilo olhava-me com misericórdia e parecia implorar para que eu não o comesse. Mas se eu o salvasse seria a minha derrota. E se eu o comesse restaria o remorso, uma imensa dor de barriga e a glória.
Abocanhei a sua cabeça. A platéia cuspia para cima.
Pedaço por pedaço, fui saboreando o corpo azedo do inseto.

Ilustrações de Luisa Brandt: http://www.flickr.com/photos/santa_paciencia

8 comentários:

alexandre guardiola disse...

afeto franciscano, muito bom. muito bem colocada essa nossa memória de infância, essa necessecidade da superação alheia.

Luisa disse...

... acho que imaginar comer esse inseto me fez ter menos asco por eles!

hehehehe.

Adoro o Líder!

Beijos!

Gina disse...

Queridos
Adorei o conto e adorei as imagens
beijo nos dois !

Fernanda disse...

Muito bacana mesmo, adorei! As ilustrações ficaram lindas!

Flavio Aquistapace disse...

Amei o conto. Despertou em mim uma reação bem emocional. Talvez porque eu tenha uma relação muito intensa com grilos na infância. Morávamos em um grande terreno de terra. E eu gostava de colocar o bicho num saco transparente. Daí eu o enterrava, e só tirava de lá quando ele já estava quase morrendo. Eu o via em câmera lenta, mexendo lento as asas. Eu tinha dó e o soltava feliz.
Nessa mesma casa eu vivia com medo do Menguele - o corpo dele foi encontrado lá por perto. É bizarro, mas era a minha infância.
Eu me comia com medo que me pegassem. Me levassem para o saco e me tirasse de lá só quando estivesse sem ar. Uma forma de me proteger disso, era me escondendo no calor das cobertas. Eu sabia que no sono estaria protegido do torturador. Então, era para lá também que eu levava os rapazes que eu achava bonitos.
Eu tinha seis anos, e vivíamos com uma leõa em casa. Além da mamãe. Além dos meus irmãos. Além dos cachorros - eles eram muitos, demais.

Abraços
Obrigado pelo conto. Obrigado pelas ilustrações. Está mesmo um arraso.
Eu li ao som de Disorder, do Joy Division, e foi um mix bem legal de tudo.
F.

Bruno disse...

Amei o conto. Despertou em mim uma reação bem emocional. Talvez porque eu tenha uma relação muito intensa com grilos na infância. Morávamos em um grande terreno de terra. E eu gostava de colocar o bicho num saco transparente. Daí eu o enterrava, e só tirava de lá quando ele já estava quase morrendo. Eu o via em câmera lenta, mexendo lento as asas. Eu tinha dó e o soltava feliz.
Nessa mesma casa eu vivia com medo do Menguele - o corpo dele foi encontrado lá por perto. É bizarro, mas era a minha infância.
Eu me comia com medo que me pegassem. Me levassem para o saco e me tirassem de lá só quando estivesse sem ar - a vingança do grilo. Uma forma de me proteger disso era me escondendo no calor das cobertas. Eu sabia que no sono estaria protegido do torturador. Então, era lá também que encontrava os rapazes que eu achava bonitos.
Eu tinha seis anos, e vivíamos com uma leoa de verdade em casa. Além da mamãe. Além dos meus irmãos. Além dos cachorros - eles eram muitos, demais.

Abraços
Obrigado pelo conto. Obrigado pelas ilustrações. Está mesmo um arraso.
Eu li ao som de Disorder, do Joy Division, e foi um mix bem legal de tudo.
F.

Anônimo disse...

Queria te apresentar para uma amiga, que também escreve uns contos lindos, é a Ana, www.dakaana.blogspot.com, vai lá no blog... vou pedir pra ela te visitar também, afinal, é bom ver que estamos espalhados pelo mundo!!! Abraços, e muito prazer. Daka.

Tino Freitas disse...

Olá Marcelo... primeiro, quero parabenizá-lo pelo blog parceiro no tema (literatura) e nas escolhas (também indicamos as revistas). Estará em nossos links. Quanto ao Líder, gostei muito, deu vontade de ler para as crianças do projeto e ouvir os "arghs". Concordo com o que disse o Alexandre... o "afeto franciscano" foi o que mais gostei pois me pegou de surpresa. Visitarei sempre. Abraços de letrinhas.

Imagem: Rogério Pinto