23.6.08

Conversas no Sótão com Lia Zatz


O Labirintos no Sótão tem a honra de receber a visita de outra grande dama da literatura infanto-juvenil: Lia Zatz. E assim se deu a nossa conversa no sótão:

1. Qual é o seu "lugar imaginário" favorito dentro da literatura?
LIA ZATZ:
Muitos. Toda vez que me envolvo com um livro, os lugares que encontro nele, naquele momento, são os meus lugares imaginários favoritos. Isso aconteceu, por exemplo, em todos os livros da genial Lygia Bojunga Nunes. Quer lugar mais incrível do que a casa da madrinha, do livro do mesmo nome?

2. Se você entrasse num labirinto e se deparasse com o Minotauro, o que você faria ou diria para ele?
LZ:
Eu diria: "Sou completamente claustrofóbica. Me diz onde é a saída pelo amor de deus! Já! Agora!"

3. Se você pudesse escolher ser um personagem da história da literatura, qual seria?
LZ:
Muitos também. Que menina não quis ser todas as heroínas dos contos de fadas? Li há pouco um livro adorável da Célia Rees que se chama "Piratas". Acho que qualquer mulher adoraria ser Nancy, protagonista e narradora da obra. Mas sabe o que me veio também à cabeça? As maravilhosas mulheres-fortaleza dos filmes do Almodóvar!

4. Qual é a importância da imaginação no seu processo criativo?
LZ:
Tem criação sem imaginação? Não penso só no trabalho do escritor, mas em qualquer trabalho, como por exemplo, arrumar espaço na geladeira para caber todos aqueles potinhos de restinhos que vamos juntando. Penso em qualquer ação, em qualquer relação. Todos nós imaginamos o tempo inteiro. A questão é conseguir transformar a imaginação em criação, a imagem em ação. Ou não? 90% de mão na massa, é isso aí!

5. Qual foi o autor ou livro que, na sua infância, te fez gostar de ler, ter o prazer da leitura?
LZ:
Ganhava muitos livros, lia muito, minha mãe lia sempre para mim e meus irmãos. Mas o que de fato estabeleço como ponto de mutação aconteceu quando eu já tinha 15 anos e fiquei doente por uma semana, sem poder falar. Foi quando minha mãe me apresentou à literatura russa. Virei uma apaixonada por Gorki, Dostoievski, Tolstoi e, por fim, pela leitura. Foi o início da minha caminhada por este vício, do qual declaro, assumo e aceito ser totalmente dependente.

Lia Zatz é escritora de livros infantis e juvenis. Nasceu em São Paulo, é licenciada em Filosofia pela Universidade de Paris X, Nanterre, França e pós-graduada em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP). Uma de suas grandes preocupações é o incentivo à leitura como fundamental para ampliar o universo cultural de crianças e jovens de famílias de baixa renda e para combater o fracasso escolar. Esta preocupação transparece em seus livros, alguns dirigidos a crianças em fase de alfabetização, outros abordando temas cruciais, como a questão da mulher e do negro. Desde 1987, quando foi eleita bolsista da Ashoka - Empreendendores Sociais, criou e desenvolveu, em conjunto com outros profissionais da área, diversos projetos de incentivo à leitura como, por exemplo: o Grupo Pastel que editou livros patrocinados para torná-los acessíveis a educadores e alunos de escolas públicas e capacitou professores da rede pública; o Projeto Biblioteca Viva, que teve início como uma ação voluntária de autores, ilustradores e professores e foi depois encampado pela Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança; o projeto de biblioteca comunitária da Fundação Gol de Letra etc. Além da área de leitura e literatura infantil e juvenil, dedica-se também a projetos editoriais voltados para o bem estar social, tendo participado da elaboração do Guia de Financiadores Support (com informações sobre financiadores de projetos sociais), do Guia do Presente Solidário (com informações sobre comunidades organizadas para geração de renda através do artesanato), do Guia SAMPA $EM Para Jovens (com informações sobre o que a cidade de São Paulo oferece de gratuito ou de baixo custo em diversas áreas: cultura, educação, saúde, trabalho, esportes etc.) e do Guia Dicas (dirigido a egressos das prisões, com informações sobre serviços importantes para que possam reconstruir suas vidas). Como autora, ganhou duas vezes o Prêmio APCA de melhor autor de literatura infantil, várias vezes o selo Altamente Recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, menção no Prêmio Espace Enfants 1994 (Suíça), foi finalista no Prêmio Jabuti (2005), e já constou do White-Ravens, catálogo oficial da Biblioteca Internacional de Munique. Dentre suas obras destacam-se: Suriléa-Mãe-Monstrinha (Editora Callis); João X Sultão (Quinteto Editorial); Jogo Duro - Uma história de negros que passou em branco (Editora Dimensão); Aventura da Escrita (Editora Moderna); Galileu-Leu (Editora Lê); Tarsila (Museu de Arte Contemporânea e Editora Paulinas); Zé Maria Pai e Mãe (Editora Lê); Alfabetando (Editora Paulinas); Era uma vez uma bruxa (Editora Moderna); Bruxapéu (Editora Callis); O aniversário de Bruxapéu (Editora Callis); Lasar Segall - O Pintor de Almas (Editora Callis); Dadá bordando o cangaço (Editora Callis), Série Ver-a-cidade:Dona Magnólia Roxa e Ser ou não ser, eis a questão, Tô com fome, O Cachecol (Editora Biruta), Pagu (Editora Callis), Série Marrom de Terra: Uana e Marrom de Terra, Tenka preta pretinha, Luanda filha de Iansã, Manu da noite enluarada, Papí o construtor de pipas (Editora Biruta), Tique-tique nervoso (Editora Dimensão).
Para saber mais, acesse: http://www.liazatz.com.br/

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Imagem: Rogério Pinto