29.5.08

O Lugar da Literatura Infantil e Juvenil - para Cláudio Fragata

Existe uma afirmação muito difundida por aí que considero criminosa para com a história da literatura, que é: “a literatura infantil e ou juvenil é muito importante, pois é a possibilidade da construção do futuro leitor”. Esse pensamento está atrelado à idéia de uma literatura de formação, de um leitor ainda por se fazer. Mas, na verdade, esse leitor não está em processo de construção, ele já é um leitor. (Não estou falando aqui das categorias sugeridas pela Professora Dra. Nelly Novaes Coelho, e sim da criança como leitor que já é, independente de sua faixa etária). E pensa-se, infelizmente, a literatura infantil e juvenil como um lugar de passagem para o mundo dos livros dos adultos e os clássicos.
Ora, pergunto eu: Quem leu Alice no País da Maravilhas, Peter Pan, A Bolsa Amarela, O Gênio do Crime, A História Sem Fim, O Menino Maluquinho, Uma idéia Toda Azul, As Reinações de Narizinho, só para citar alguns, já não leu um clássico? Aliás, vários. Se esse mesmo grande/pequeno leitor irá ler também outros clássicos como Grande Sertão: Veredas, Crime e Castigo, A Metamorfose e Memórias Póstumas de Brás Cubas, que ótimo que o faça. Mas é preciso que fique muito claro, a lista daqueles livros acima não serviu de escada para esta. Caso contrário, estaríamos sendo hipócritas ao incentivarmos a leitura de livros “menores” para nossas crianças e jovens.
Como podemos querer que se interessem por algo que é pior do que àquilo que os adultos lêem? É claro que alguns conteúdos e temas serão ou não do interesse dos diferentes tipos de leitores. Mas isso é comum em leitores de qualquer faixa etária. Também é verdade que, a princípio, alguns livros que não tinham sido escritos para o público adulto acabam por atingi-lo, e vice-versa.

Estou falando aqui é da qualidade literária desses textos e de como grandes autores, acabam por formar, não por desejo próprio, um grupo à margem da história da literatura, pelo simples fato de que suas obras reverberaram nas crianças e jovens mais do que nos adultos. Não posso pensar outra coisa senão em preconceito. Por que não falamos em Literatura Brasileira para adultos? Para idosos? Literatura se for boa, é literatura e ponto. Entendo que, mercadologicamente, se faça essa distinção, mas não compreendo o descaso, o desprezo e, ainda para muitos, o lugar de literatura “menor” quando se fala em literatura infantil e juvenil. É bem verdade que há muita coisa ruim publicada por aí. Mas, diga-se de passagem, isso não é privilégio da literatura para crianças e jovens.
Dirão alguns que o que eu digo é pura teoria da conspiração, já que existem muitos prêmios que valorizam esses autores e seus livros, etc, etc, etc. Bem, basta folhear os nossos principais jornais e seus cadernos culturais para perceber que quase não há resenhas sobre livros infantis/juvenis. Quantos lançamentos de jovens ou mesmo de veteranos escritores que escrevem – o que se convencionou chamar Literatura Infanto-juvenil - foram anunciados e resenhados nesses cadernos? Quando isso acontece é por um grande apelo midiático como no caso de Harry Potter. Que ótimo! Mas e os outros títulos? E os outros autores? Estão à margem da história da nossa literatura. Pouco se sabe sobre a obra de Lygia Bojunga, Ângela Lago, Tatiana Belinky, Eva Furnari, Marina Colasanti, João Carlos Marinho, Bartolomeu Campos de Queiroz, Leo Cunha, Cláudio Fragata, Jorge Miguel Marinho, Índigo, Lúcia Hiratsuka, Tereza Yamashita, Luiz Bras, entre tantos outros nomes. É como se existisse uma história à parte só para contemplar a literatura infantil e juvenil. História que jamais vi assimilada pela história da dita “grande” literatura. É aquilo que gente séria não fala e não escreve sobre.


É bem verdade que, no mundo acadêmico, pelo menos desde a década de 1970, as pesquisas têm avançado e o tema cada vez mais vem sendo debatido, refletido e estudado. Só para citar alguns nomes: Nelly Novaes Coelho, Marisa Lajolo, Regina Zilberman, José Nicolau Grégorin Filho, Luís Camargo, Leonardo Arroyo, Edmir Perroti, entre tantos outros pesquisadores. Mesmo assim, à margem, e excluídos das reflexões nos cadernos de cultura.
Enfim, é preciso compreender que as diferenças só enriquecem, e que a boa literatura está acima de rótulos, mesmo que os rótulos existam. É preciso compreender Grande Sertão: veredas e Reinações de Narizinho como um único corpo no panorama da nossa história literária. É preciso estar além dos rótulos para garantir um lugar digno à literatura dedicada às crianças e jovens. É preciso se livrar dos preconceitos.

3 comentários:

Anônimo disse...

Marcelo:
Disse tudo. É uma batalha de formiguinha. Mas a verdade é que esse é um país que se destaca pela sua literatura infantil/ juvenil. Com reconhecimento de mídia ou não.
beijinho, Índigo

Achados & Perdidos disse...

Marcelo, o preconceito é grande, e Einstein já dizia: "É mais fácil quebrar um átomo do que um preconceito". A boa literatura escrita pra crianças e jovens é universal, agrada a gregos e baianos, anjos e marmanjos. "Um livro escrito pra crianças de que só as crianças gostem é um péssimo livro pra crianças" (C.S. Lewis). Hoje estamos cheios de citações... Tudo isso pra dizer que estamos tão indignados quanto você, com essa situação lamentável.
Abraço!
Tereza e Luiz

Leo Cunha disse...

Bom dia, Marcelo,
Gostei muito do seu desabafo, que é o de todos os nós, autores quase invisíveis, como você bem notou.
Aproveito pra te convidar para conhecer (se não conhece ainda) o meu site:
http://leocunha.jex.com.br
Abração

Imagem: Rogério Pinto